domingo, 8 de agosto de 2010

Amigo do seu amigo

José Sócrates é um homem determinado, corajoso e amigo do seu amigo. Diga-se o  que se disser do primeiro-ministro, não há registo de alguma vez ter deixado cair   alguém que lhe tenha sido leal nos perigosos e escorregadios caminhos da políticas nas suas diversas vertentes.


Vem isto a propósito das recentes polémicas em torno de figuras como Cândida Almeida e Pinto Monteiro. Os dois magistrados têm sido exemplares no modo como têm interpretado o seu papel na sociedade e no Estado. E têm sido exemplares também na forma como sempre respeitaram José Sócrates desde que o secretário-geral do PS chegou ao poder. Cândida Almeida arquivou o processo da sua licenciatura em engenharia e agora enterrou o caso Freeport. Pinto Monteiro, esse, evitou, contra tudo e contra todos, que as suas conversas com Armando Vara fossem conhecidas e conseguiu anular uma investigação a um crime de atentado contra o Estado de Direito. É obra. José Sócrates, amigo do seu amigo, sente naturalmente uma grande estima e admiração pela forma leal, determinada e corajosa como os dois magistrados suportaram tanta tempestade. É verdade que a lealdade, o respeito e o silêncio não têm preço. Mas há sempre excepções. E o primeiro--ministro, como se sabe, é um bom pagador. Não de promessas. De amizades.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

A rainha de Inglaterra do Palácio de Palmela

Quem desce as escadas da estação do metro do Parque, em Lisboa, depara-se com uma citação de Gilles Deleuze: "A ética é estar à altura do que nos acontece."

É uma pena que uma frase tão certa esteja na estação errada. Ela fazia imensa falta a decorar as paredes do metro do Rato, para que o senhor Procurador--Geral da República, nalgum dia em que por azar o seu carro tivesse empanado ou o motorista adoecido, pudesse olhá-la de frente e meditar sobre aquilo que Deleuze quer dizer. Neste momento, na pobre Justiça do Portugal de 2010, nada nos faz mais falta do que ter gente à altura do que lhe acontece. Já se percebeu que falta muito tamanho a Pinto Monteiro para chegar lá.

A sua pequena entrevista ao ‘DN’ de terça-feira, imagina-se que bem ponderada e dada por escrito, é uma espantosa manifestação de impotência, conformismo e cinismo. Impotência, porque a tirada da Rainha de Inglaterra – o PGR "tem os poderes da Rainha de Inglaterra e os procuradores-gerais distritais são atacados sempre que pretendem impor a hierarquia" – é uma forma de dizer: "eu gostava imenso de mandar no Ministério Público, mas a lei não me deixa."

Conformismo, porque se chegou à conclusão de que não manda nada não se percebe porque continua a frequentar o Palácio Palmela – demitia-se, que a pátria agradecia. Cinismo, porque como vários juristas de renome não demoraram a explicar, os poderes do PGR não são tão pequenos como ele nos quer fazer crer. Foram, aliás, suficientemente latos para matar a investigação em torno das escutas Vara/Sócrates, através de um expediente cerzido com tal dedicação que não admite recurso nem verificação. Que o MP é um saco de gatos, já toda a gente percebeu.

Mas Pinto Monteiro podia ao menos poupar-nos ao seu triste ronronar – para o papel de virgem ofendida já nos chega o primeiro-ministro.


terça-feira, 3 de agosto de 2010

É preciso ter lata

O PSD decidiu marcar mais uns pontinhos na sua brilhante agenda política. Tudo por causa da derrapagem das contas públicas no primeiro semestre do ano.

Com ar solene e indignado, o economista liberal e cada vez mais relativo que lidera os sociais-democratas decidiu estragar as férias parlamentares para pedir explicações ao venerável ministro das Finanças. Espantoso. Quando o Mundo mudou numa noite, o partido da S. Caetano assinou por baixo os aumentos retroactivos de impostos e esqueceu-se muito convenientemente de exigir o fim das grandes obras públicas e o corte nas despesas do Estado. Agora, com os portugueses a sentirem no bolso e no estômago os efeitos do tango obsceno do Bloco Central, aparece muito exaltado a pedir contas ao engenheiro relativo. É preciso ter lata.

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segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Os imbecis vencerão

O engenheiro relativo foi de férias e deixou por cá a sua ajudante da Educação a entreter os papalvos com propostas parvas.

A ministra, especialista em muitas aventuras, quer eliminar os chumbos, uma palavra terrível para os pedagogos que têm destruído o ensino ao longo destes anos de democracia. Gostam mais de repetência ou retenção. Fere menos os ouvidos sensíveis das criancinhas, mamãs e papás. Avante, Alçada!

Acaba-se de uma vez com o insucesso escolar, o País sobe uns lugares na estatística e a escola pública, tão querida da esquerda, passa a ser um armazém de calões e analfabetos que ninguém quer. Nem de borla. Só mais uma sugestão. Os exames devem ser extintos. As vergonhosas notas a Português e Matemática exigem uma medida radical, uma revolução. Os imbecis vencerão.

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domingo, 1 de agosto de 2010

Ao serviço da Pátria

Vai aceso o debate sobre o caso Freeport. Polícias e magistrados do  Ministério Público andam a sacudir a água do capote, e a partir de agora vale tudo.

Acusações, denúncias, fontes anónimas, perguntas para o primeiro-ministro que ficaram no papel, a já célebre falta de tempo para concluir as investigações e, qual cereja em cima do bolo, o inquérito mandado instaurar pelo procurador--geral da República com a pompa e a circunstância do costume. É caso para rir ou para chorar convulsivamente. O resultado desta imensa palhaçada é igual a zero. Vai ficar tudo como dantes, quartel-general em Abrantes. Já se sabe que em Portugal há muita corrupção, mas nunca há políticos corruptos. Isto é, a corrupção chega às autarquias e parou.

Ministros e secretários de Estado, sejam do PS, PSD ou CDS, nunca foram acusados, julgados e condenados por corrupção. Já se sabe que em Portugal polícias e magistrados do Ministério Público tremem de medo sempre que lhes cai no colo um qualquer processo que envolva gente do poder. É por isso que não vale a pena andarem por aí a perder tempo com pacotes contra a corrupção. Bastava decretarem que ministros e secretários de Estado podem encher os bolsos à vontade. Que diabo! Os homens são mal pagos e estão a prestar um enorme serviço à Pátria.