No espaço de uma semana, o Ministro das Finanças desdobrou-se em várias declarações disparatadas – deu duas entrevistas contraditórias sobre a necessidade da intervenção do FMI, resolveu provocar a função pública com o anúncio de que os cortes salariais são definitivos e suscitou a ira dos empresários ao recomendar-lhes a moderação salarial que o sector privado, ao contrário do Estado, já fez há vários anos.
Na mesma semana, o Ministro dos Negócios Estrangeiros ocupou o espaço noticioso com declarações absurdas sobre a urgência de uma grande coligação, invadindo o espaço de competência do Primeiro-Ministro e suscitando críticas várias dentro do próprio partido. No mesmo lapso de tempo, o desbocado Ministro das Obras Públicas resolveu contrariar o que o Governo acordou com o PSD em matéria de reavaliação dos investimentos públicos, anunciando que o TGV vai avançar, com ou sem a reavaliação a que o Governo se comprometeu.
Nestes mesmos dias, perante as notícias preocupantes do agravamento do desemprego, a Ministra do Trabalho resolveu sair da sua clandestinidade, não para anunciar qualquer programa de estímulo ao emprego, mas para declarar que é normal e até esperado este aumento do número de de-sempregados. Ao mesmo tempo, vários dirigentes do PS resolveram vir publicamente apelar a uma remodelação do Governo, desafiando a autoridade do Primeiro-Ministro e a pacatez verbal que era habitual no partido do Governo.
Perante tudo isto pergunta-se: o que leva tantos responsáveis do Governo e do PS a falar demais e a dizer tantos disparates? O que explica tanto desvario e insensatez? O que conduz o poder instalado a afirmar-se, ele próprio, factor de instabilidade política? A resposta é demasiado óbvia – estamos em fim de ciclo. Sem obra para apresentar, incapaz de fazer face à crise e em queda brutal nas sondagens, está rapidamente a chegar ao fim o ciclo governativo do PS. Por isso, o Governo está à deriva e em desagregação, o partido atónito e desorientado e o Primeiro-Ministro em perda acelerada de liderança e autoridade. Em democracia, não há vitória que não termine em derrota. Estamos a aproximar-nos rapidamente do momento de aplicação desta regra política universal. Já foi assim com o PSD. Desta vez é com o PS. E quando assim é, nada há a fazer. Não há remodelações ou coligações que resolvam o que só o povo pode resolver. É apenas uma questão de tempo.
