sábado, 4 de dezembro de 2010

Sá Carneiro

O filósofo Isaiah Berlin escreveu em tempos que Israel normalizara a condição dos judeus no mundo. Os judeus eram ‘corcundas’, dizia ele metaforicamente, porque viviam a sua identidade de forma desconfortável.
Israel cortara essa ‘corcunda’, oferecendo-lhes casa própria. Lembro este texto de Berlin nos 30 anos da morte de Sá Carneiro. Muito se escreveu sobre a vida e o pensamento do homem.
Não me meto por esses caminhos. Prefiro o meu: Sá Carneiro cortou a ‘corcunda’ da direita portuguesa ao dar-lhe respeitabilidade e legitimidade. Ser de direita, no Portugal pós-revolucionário, era ser um nostálgico da velha ordem; ou, em alternativa, um situacionista sem ideologia ou coluna vertebral, mero apêndice do PS – ou da tutela militar.
Sá Carneiro removeu essa ‘deformidade’: contra Marcello; contra o PREC; contra Soares; contra uma parte do PPD; e contra Eanes, era possível uma direita democrática, pluralista e atlanticista, respeitadora da iniciativa privada e da dignidade da pessoa humana. Morreu demasiado cedo, é certo. Mas fez o bastante para que a direita, ou uma parte dela, pudesse andar por aí de costas ao alto. Muito obrigado.

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